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segunda-feira, 27 de maio de 2013

Sudamérica - segundo acto

Vi uma fotografia no World Press Photo, na categoria assuntos contemporâneos (já acabou a exposição no museu da electricidade, agora só mesmo vendo aqui) que me lembrou de uma coisa de que ainda não tinha falado, sobre Buenos Aires.
A fotografia do WPP é esta:
http://www.worldpressphoto.org/awards/2013/contemporary-issues/micah-albert

AT THE DANDORA DUMP
03 April 2012
Nairobi, Kenya
A woman sits on bags of waste she has salvaged, at the Dandora municipal dump, outside Nairobi, Kenya. She said that she enjoys looking at books, even industrial catalogues, as a break from picking up garbage.
The dumpsite, some 8 km from the center of the Kenyan capital, is one of the largest rubbish dumps in Africa. People living in the slum area around the site have been found to suffer from increased levels of lead in their blood, as well as above normal incidence of kidney disease and cancer. Gases rising from decomposing waste lead to high rates of respiratory disease.
Despite the health risks, between 6,000 and 10,000 people earn a living from the dumpsite, seeking food waste, scavenging goods for resale, or separating materials for recycling. Informal cartels run the recycling operation, paying pickers around €2 a day. 
Opened in 1975, the dump should—under international environmental laws—have been closed after 15 years. It remains in use, despite being declared full in 2001.

[resumindo, é o retrato de uma lixeira no Quénia, que abriu em 1975 e que já devia ter deixado de ser usada em 2001. A mulher retratada é uma das muitas que, arriscando a saúde, recolhe lixos para vender por 2 euros/dia]

Acho que foi na noite em que voltámos para San Telmo, depois de deslumbrados com o ultra-luxo dos hotéis de Puerto Madero, que olhámos com olhos de ver para os ajuntamentos de pessoas nas esquinas à beira dos contentores do lixo. Acho que já tínhamos visto assim pessoas a remexer nos caixotes do lixo, nas horas em que passam os camiões, mas não olhámos bem, porque nos pareceu a cena familiar que também cá há: pessoas que procuram alguma coisa que lhes possa ser útil nos desperdícios do lixo dos outros. Mas nessa noite (nessa ou noutra em que íamos jantar por ali, para o caso é igual) apercebemo-nos que era mais que isso.
Uma família inteira, pai, mãe (muito novos) com filhos bebés e outros já não tão bebés, sentados em pilhas de lixo, rodeando o contentor, numa clara manifestação de "este território é nosso e ninguém lhe mexe senão nós". Não chegámos a entender exactamente o que se passava, e depois até vimos outras famílias ou grupos em outras esquinas, junto de outros contentores. Achamos que são pessoas que vivem de vender o lixo, apanhando-o e reunindo-o em sacos gigantescos, antes que o camião "oficial" o recolha. E durante o dia, passámos a reparar que essas pessoas, famílias, pais com crianças, dormem em cima do seu lixo, nas ruas, à vista e debaixo dos pés dos transeuntes diurnos, não só em San Telmo, mas em outras áreas, mais comerciais e corporate.
E isto, claro, é (também) a América do Sul.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Era mais uma semaninha e estava o périplo completo

Quem tenha tempo e quiser sair de Buenos Aires, há várias excursões de pullman (autocarros/cama) que se podem fazer, pequenas escapadinhas de 3/4 dias:
- El Calafate: a quase três mil kilómetros a sul, o glaciar mais famoso, a que também dá para aceder pelo lado chileno;

- Mendonza, na fronteira oeste, diz que é um lugar lindíssimo com muitos lagos, cada um mais bonito que o outro (não sei se bate os nossos Açores, mas deve valer a pena, é procurar fotos na net);

- E, claro, as famosas Cataratas do Iguaçu, a norte, com parque natural partilhado com o Brasil.

Sudamérica


Eu achei interessante a minha América do Sul nesta viagem pelos contrastes entre as intensas urbanizações de Buenos Aires e Santiago em confronto com as paisagens inóspitas da Terra do Fogo, mas também os contrastes das pessoas.

Na Argentina não se vê na fisionomia das pessoas traços dos povos que lá habitavam antes dos colonizadores. Ou melhor, vêem-se os traços dos imigrantes que a povoaram: italianos, espanhóis, e há muitas miúdas loiras de olhos claros.
No Chile não, vêem-se  muitas pessoas com traços das tribos nativas, embora pela história a dizimação dos índios lá tenha sido brutal. Acho que não houve foi tanta imigração de Europeus, talvez porque era mais difícil transpor a barreira geográfica dos Andes (Também digo que se ultrapassá-los a pé deve ser um feito humano incrível, sobrevoar mete uma miúfa do caraças, o avião estremece por todos os lados e lá em baixo só se vê picos escarpados cheios de neve - eu olhava para baixo e só pensava "pronto, se isto cair, lá vou eu provar carne humana pela primeira vez, como os gajos daquele filme angustiante em que estavam perdidos no gelo" , nem tinha medo de morrer na queda, era mesmo essa coisa de ficar perdida naqueles picos gelados que me ocupava o pensamento).

Depois há outra coisa que faz com que pareçam duas sudaméricas diferentes que é o explosivo número de pessoas nas avenidas de Buenos Aires em confronto com os espaços desafogados entre os prédios contemporâneos de Santiago. Na Argentina, nota-se mesmo que a população é muito jovem e, não sei se era o meu olho direccionado para isso, mas muitas grávidas e carrinhos de bebé. No Chile também população muito jovem, mas as ruas são muito mais calmas e ordeiras, não andamos sufocados com a poluição dos carros.

Mas uma semelhança engraçada são os nomes das ruas. Segundo o nosso guia lá em Santiago, o Chile é pouco original em vocabulário toponímico e por isso de início é confuso vir de Buenos Aires e encontrar em Santiago avenidas com os mesmos nomes, como Maipú, San Martin. Parece uma realidade paralela, em que os nomes são os mesmos, mas as avenidas não são tão largas nem compridas e os carros mais esparsos.

Outro contraste foi a gastronomia. A comida argentina é dominada pelas influências desses imigrantes e por isso há as empanadas e imensos restaurante italianos belíssimos. A parrilla (que eles pronunciam parrija, como desajuno em vez de desayuno) não sei se tem influência externa ou se é só por terem a tradição da criação de gado bovino. Por falar nisso, uma coisa que também dá para fazer quem lá vá, se tiver tempo e gostar, é ir a um "rodeo", fora da cidade, com verdadeiros "gaúchos" e vacas mortas assadas nas brasas.
Para lá da cordilheira, na gastronomia chilena nota-se muito mais a influência nativa, os pratos típicos de todos os dias são normalmente com calorias nutritivas, à base do milho próprio de lá, alguma carne e legumes. Têm também muita tradição do excelente pescado e mariscos - provámos lá uns ouriços do mar que eram muito melhores do que a nhanha que experimentámos um dia cá em Portugal (num domingo de experimentação molecular). Utilizam uma mistura de especiarias, o merquén, que, à vista, até parece aquele colorau em pó que vemos em Espanha para a paella, mas de sabor é muito mais picante e rico.

(Eu não me canso de falar disto, é puxarem-me pela língua e cá vou eu lançada - também eu viajo nestas memórias escritas)

terça-feira, 21 de maio de 2013

Menti

Afinal ainda não vai acabar hoje a saga das fotografias da viagem. Agora não me apetece selecionar as que eram para pôr hoje. Ou então, sou eu conscientemente a adiar o desprazer de encerrar este capítulo.
Fica aqui só uma, para me contradizer ainda mais.

Em Buenos Aires não há só edifícios Arte Nova. Também há Arte Déco:
Este é o Edificio Kavanagh, dos anos 30. Parece o empire state building, de NY, não parece? Além do aspecto parecido, este foi também durante muito tempo o mais alto da América do Sul. A fachada actual perde muito por ter persianas "modernas" mas ainda assim, vale a pena ir até lá ao bairro do Retiro só para o ver.

E outra coisa gira, e muito novaiorquina também, que encontramos assim nestes jardins, como esse de cima que é o da Plaza San Martín, btw praticamente a única praça de jeito que eles lá têm, i.e., uma praça com tudo o que uma praça deve ter: árvores, espaço para passear, prédios bonitos à volta e as faixas das avenidas cheias de carros estarem pelo menos as uns 50 metros disso tudo, dizia eu outra coisa gira são os passeadores de cães. Este que apanhámos na foto só tem seis, mas chegámos a ver passeadores com uma dúzia de cães pelas trelas. E desconfio que os cães devem adorar estes passeios em matilha.

Arte urbana em Buenos Aires

Vamos então voltar à vaca fria da arte urbana em Buenos Aires.

Nesta populosa cidade, a street art explodiu a partir da crise económica de 2001, altura em que alguns artistas de graffitti pensaram com os seus botões (provavelmente mais com os seus atacadores dos ténis, com os seus skates ou piercings, mas para o caso é igual):

"hum, a cidade está cada vez mais cheia de mensagens políticas e murais com desenhos agressivos e cinzentões, que tal se déssemos um pouco de cor à cidade, se trouxéssemos de volta alguma alegria à vida das pessoas?"

Foi este movimento que deu origem à verdadeira galeria ao ar livre que encontramos hoje em Buenos Aires.

Quanto ao problema do "ser ou não ser" legal, a resposta é nim. Como diria o Marcelo, pode-se pintar as paredes à vontade? Não. Mas a polícia faz alguma coisa? Também não.

E o comum cidadão? Esse até gostou de ver os Tags que pululavam na cidade serem substituídos por este festival de cores.
Para quem não sabe, como eu não sabia mas aprendi numa visita guiada que fizemos lá em BA, Tags são aquelas assinaturas praticamente ilegíveis na parede, feitas no menor tempo possível, que não acrescentam interesse nenhum à cidade, porque não permitem uma identificação de quem passa com o graffiter que a fez. São pinturas na parede que só têm valor para o próprio autor delas.

Já diferente é a interacção dos habitantes da cidade com este novo movimento artístico urbano.Se vêem um artista em cima de andaimes com os seus baldes de tinta, a pintar um mural numa esquina, param para olhar e conversar com ele e são capazes de o convidar para ir pintar a casa deles. Isto para o artista tem duas vantagens muito práticas:
(a) Tem alguém que lhe pague as tintas e, se necessário pela altura do mural, os andaimes,porque normalmente são eles próprios que pagam essas coisas do seu bolso;
e (b) Tem alguém que lhe resolva o problema da competitividade pelos espaços disponíveis da cidade.

Portanto, há uma apropriação de espaços públicos pelos artistas de graffitti, mas também uma conivência e uma convivência da sociedade com essa apropriação e até mesmo uma oferta da sociedade em aumentar os espaços livres a serem ocupados com esta expressão artística.

Como em todas as cidades, para além daquele problema da fronteira da ilegalidade com um uso que se vai enraizando em actividade costumeira, também aqui os artistas se defrontam com o problema do espaço físico limitado. As paredes, muros e pontes da cidade não são infinitos e por isso são bem-vindas quaisquer novas "doações" de espaço para pintar.

Claro que tradicionalmente os graffitis são efémeros mas enganem-se se pensam que estes artistas ficam muito aborrecidos se alguém vai e pinta por cima de uma das suas obras.
Não, isso também é esperado, é intrínseco a esta forma de arte, será até a essência que lhe dá maior interesse, e é acolhido com alegria.
Nessa tal visita guiada tivemos a sorte de ir a um atelier de um colectivo de graffitters, e um dos artistas, enquanto nos explicava este fenómeno da mutação das suas obras de arte, fazia-o com um sorriso e um brilho especial nos olhos.
Com isto chega de paleio e mais logo mostro o que interessa, as fotos desta arte urbana, com a promessa de que fica o assunto viagem assim encerrado.

Aqui não há Tango

Só para falar de mais uma coisa sobre Buenos Aires.

Uma noite fomos passear ao sítio de Buenos Aires que equivale a um misto das nossas Docas com Parque das Nações: Puerto Madero.
Fica à beira de um canal, com marina e edifícios modernos, restaurantes de Parrilla mas até com bom aspecto (quero dizer, com good money for value, sem ser só para turista ver), e alguns hotéis de luxo. Ah e acrescento ainda que Buenos Aires tem uma coisa estranha, que é o facto de geograficamente ser à beira-rio, mas a cidade viver voltada de costas para a zona ribeirinha, porque a água é castanha e tradicionalmente é a zona portuária. BA é o maior porto da Argentina e é daí que vem a alcunha dos habitantes, que são chamados de porteños.
Então esta zona de Puerto Madero está mesmo ao lado do rio, mas de lá nem se vislumbra rio, só o canal artificial que lhe serve de fio condutor.

O átrio do Hilton em Puerto Madero é um gigante de vidros e cristais feito para que os de fora admirem os VIP de dentro, mas onde os de fora podem entrar como se fosse normal fingir que se vai ao bar só para ir fazer um chichi.
Este hotel é perto da ponte do Calatrava, que se chama Puente de la Mujer, em homenagem às lutas feministas. Pronto, aqui há um bocadinho de tango, porque se diz que o Calatrava desenhou a ponte como a síntese da imagem de um casal dançando o tango.
Depois umas cuadras mais à frente há um hotel que também vem referenciado nos guias turísticos como ponto de interesse arquitectónico.
Estou a falar do Faena Hotel, cujo exterior é uma antiga fábrica em tijolo, com o necessário look industrial, e os interiores foram desenhados pelo Philippe Starck.
Claro que fomos lá em peregrinação, para dar com um porteiro e política de porta fechada. A nossa sorte foi a minha lata e mania que já sabia falar espanhol, e o facto de o porteiro afinal ser brasileiro e nos ter reconhecido o sotaque:
"é pra visitar? fáiz favôr, entrem à vontadji, à direita tem o restáurantchi e ao fundo a butchique".
E nós fizemos o favor, ora por quem sois irmão do brásiu.

Bom, entrar lá dentro foi uma experiência surreal. A entrada é um jardim, com cadeiras de verga onde estavam dois gentlemen barrigudos a fumar seus charutos. Depois lá dentro, é um corredor comprido, comprido, parece uma coisa do Twin Peaks, tudo em veludos, reposteiros roxos e média-luz. E espreitar o jardim interior é como passar para lá do espelho da Alice, se o País das Maravilhas fosse uma espécie de encontro entre um oásis das mil e uma noites e a mansão luxuosa de um rapper: no meio da piscina do jardim há uma coroa gigante cravejada de pedras coloridas e dourados, com um repuxo de água, que é o cúmulo do kitch, mas aquele kitch que de tão piroso é quero-um-desses-para-levar-para-casa-se-faz-favor. Saímos de lá com os queixos caídos.
E de queixo caído continuámos quando descobrimos que a zona de Puerto Madero e este hiper luxuoso Faena Hotel é praticamente paredes meias com o bairro de San Telmo, que era o nosso poiso naqueles dias: basta atravessar uma outra ponte e está-se no meio das ruinhas estreitas, com pedras tortas e edifícios podres e devolutos, e sim, mendigos a dormir no chão.

Buenos Aires (também) é uma cidade de contrastes.

E para quem faça, como nós, o pacote Buenos Aires/Santiago do Chile: de facto o Chile parece ser um país de menos contrastes, as ruas não têm tanta gente nem tantos carros (nem tanta poluição, aparentemente), as pessoas são mais calmas e a cidade de Santiago irradia civismo. Se Buenos Aires é, pela vibrante personalidade artística dos habitantes e edifícios Arte Nouveau, a Paris da América do Sul, já Santiago, urbe ordeira e simpática a visitantes, será a Berlim da América do Sul. Mas isto não faz de nenhum dos dois um país menos interessante que o outro.
São diferentes e ambos interessantes na sua diferença.

domingo, 19 de maio de 2013

Arte urbana no Chile

Então depois dos acrescentos no top de comidas e no relato de Ushuaia, um interregno para dizer que também no Chile não é preciso ir a museus para encontrar arte por todo lado.
Em Santiago, há uma rua no bairro Bellavista, a Dardignac, como quem vai a caminho do Patronato e dos mercados La Vega e La Vega Chica, que é um verdadeiro museu ao ar livre:















E em Valparaíso, toda a cidade é uma tela para os artistas colorirem:
























sábado, 18 de maio de 2013

Hollywood in Cambodia

Vamos inaugurar o marcador das festividades da mostra de arte urbana na Argentina e no Chile com esta em Buenos Aires. E não é um nome tão apelativo?

Trata-se de uma galeria de arte gerida por um colectivo de street artists (vulgo, graffiters), e que neste momento já estão muito para lá das fronteiras dos meros tags pintados furtivamente em muros.
A minha escolha de "arte para trazer para casa" era esta serra irónica, mas...o dinheiro como sempre cortou-me as voltas.7000 pesos era uuum bocadinho acima das minhas possibilidades.

A galeria fica no mesmo número de porta do Post Street Bar, em Palermo, e no topo há um terraço que à noite se enche de grupos a conversar, ouvir música e beber cerveja:

De dia é uma galeria em constante mutação, porque estes artistas adoram este conceito de "arte em movimento", ou seja, arte que num dia está lá e no outro dia alguém pintou algo por cima ou repintou completamente e a camada anterior fica só na memória de quem teve a sorte de passar no local certo à hora certa.
Este mural, do lado direito, foi pintado, acreditem ou não, a partir do lado de cá da varandinha de ferroo, usando uns cabos compridos para chegar à parede. Portanto o nível técnico a que estes artistas chegaram é muito superior ao que pensamos quando olhamos de fugida para os "rabiscos" que encontramos nas paredes. O do lado esquerdo foi pintado por um artista norte-americano que, de visita a Buenos Aires, achou que a melhor coisa para deixar obra era representar a carne argentina que é praticamente a única delícia gastronómica típica.
Pormenores de ambos:


Sobre este não sei qual foi a ideia, mas podemos dizer que também vai bem depois de carne sangrenta:


Ao lado do galo, está um gafanhoto stensil. Quando andamos nas ruas de Buenos Aires, além das pinturas com spray graffitti, encontra-se muito também esta técnica do stensil. Não parece, mas isto dá imenso trabalho a fazer, primeiro é recortado o molde e só depois é levado para o local onde se vai pintar. Claro que esta é uma técnica boa quando se quer pintar rapidamente, sem estar muito tempo no local, eventualmente porque não é exactamente legal (mas sobre a legalidade há ainda mais a dizer, fica para mais tarde)
Este é da autoria do rundontwalk, sempre coisas muito irónicas e até a raiar o absurdo onírico por vezes.

E agora, para terminar, só mais dois pormenores dos muros deste terraço/galeria ao ar livre:

Claro, disse a namorado, que é quem maneja a máquina, para tirar ao detalhe das bailarinas, carimbo que já tínhamos visto em outros sítios, na cidade.



sexta-feira, 17 de maio de 2013

é isto morbidez?

Esboçar um sorriso com a notícia da morte do ditador argentino que substituiu a dinastia Péron.

Quando conto coisas sobre a viagem a Argentina e ao Chile evito falar de política, mas a verdade é que nesses países a política está presente por todo o lado, é inevitável chocarmos com ela, mesmo quando vamos só em turismo.

Na Argentina é impossível não nos apercebermos, nas ruas, da contestação à actual presidência Kirchner e do claro, e propositadamente popular, ressurgimento da questão Maldivas/Falkland - num aparte, os argentinos parecem gostar bastante de dinastias democráticas, que para nós, europeus, é um conceito um pouco abstruso. E o turista que decida visitar a Plaza de Mayo a uma quinta feira à tarde encontrará sempre as consequências da brutalidade do regime ditatorial deste homem que hoje morreu - lá verá as mujeres de mayo, mães e avós das crianças desaparecidas durante esse regime. E mesmo toldado pelo circo mediático montado à volta delas (já é uma manifestação de tal modo institucionalizada que parece ter perdido genuinidade) não pode deixar de se impressionar pela resistência deste símbolo da cidade, que até tem direito a serem graffitadas (este já lá não está  porque a cena graffitti em BA é explosiva, mas há um outro só do símbolo dos lenços, no Barrio Norte, que não desapareceu, e pela cidade há outros ainda).
No alto de um muro, graffitti dos lenços fantasmagóricos das Madres de Plaza de Mayo, símbolo poderoso das dezenas de milhares de pessoas desaparecidas durante a ditadura, a provar que uma imagem vale mais que muitas palavras.

Até a crise económica de 2001 foi plastificada na arte urbana de todo a Buenos Aires, embora agora com muitas camadas de tinta sobreposta.
Também é um bocado difícil contornar o tema da religião. Eles já elegeram a imagem do papa Francisco a principal "recuerdo" turístico e há cartazes dele por todo o lado, com a bandeira argentina.

E no Chile também são muito conscientes do seu passado político conturbado, têm museus que contam a história recente do Allende e do Pinochet e também a história mais antiga da dizimação das tribos nativos e da luta dos Mapuches. Na Plaza de Armas, a principal praça da capital Santiago, há uma escultura de homenagem a estes índios, os únicos que conseguiram resistir, com a sua luta, contra a invasão colonial. Aqui está ela, ao sol da manhã:

E este graffitti representa uma outra tribo de índios que, reza a lenda, usavam estes capuchos na cabeça num ritual que pretendia libertar as crianças dos seus medos e fantasmas, na passagem para a idade adulta. Era um teatrinho do género "buuu, somos monstros!", depois tiravam os capuchos e "não, surpresa, somos apenas os vossos pais!"


Até mesmo para quem queira fazer turismo literário, é quase impossível evitar estes temas porque por exemplo o Pablo Neruda era muito amigo do Salvador Allende e muitos dos seus poemas falam de política. Ó ele aqui graffittado:


Na Argentina, o Jorge Luís Borges era aparentemente apartidário, mas ao que parece não gostava do peronismo e dizia-se um Spencerian anarchist, segundo a wikipedia.